COMO VOCÊ VÊ UMA CRIANÇA?

Hey, adulto! Chega aqui, me ajuda a te entender, por favor? Tenho uma pergunta para você e uns pontos que gostaria que você considerasse após responder.

“Como você enxerga uma criança?” No sentido de como você acha que é o pensamento dela, se acha que ela tem sentimentos, se acha que ela é capaz de raciocinar, etc.

Já tem sua resposta? Pode dize-la pra mim? Ok.

Agora, quero que você reflita um pouco. Vou contar-lhe algo que aconteceu comigo quando era criança:

Eu deveria ter uns 6 ou 7 anos, quando fui ao mercado com meus pais e meu irmão, meu pai ficou no carro, esperando a gente. Quando minha mãe foi pedir para pesar um saco de fruta ou legumes (não lembro), um cara estranho chegou falando que me viu no terreno da minha casa e que, quando eu tinha avistado-o, eu saí correndo. O jeito como ele contou fez todos darem risada, inclusive meu irmão. Eu não estava entendendo nada, nem lembrava do que ele falou ter acontecido, mas vi as pessoas rindo de mim e isso me marcou.

Eu era criança, poderia não estar entendendo nada daquilo que estava acontecendo, mas me senti humilhada de alguma forma, quando vi as pessoas rindo de mim. Pra mim, não interessa se ele estava tentando ser engraçado ou chamar atenção, interessa que ele estava me humilhando. Foi assim que eu vi, foi assim que me senti. Essa história de falar “ah, mas ele podia ter achado fofinho ver você correndo”, “você era criança, deve ter sido fofa sua carinha”, oi? Que tem a ver? Não é engraçado rir de criança, não é certo rir quando uma criança faz algo que ela não acha engraçado.

Essa foi uma das pequenas coisas que aconteceu na minha infância e fez eu ser quem sou hoje: uma pessoa tímida, introvertida e receosa.

Então, adulto, você ainda acha que as crianças não se machucam psicologicamente com as suas atitudes? Você acha que elas gostam quando dão risada dela por ela ter deixado um copo cair no chão? Ou do jeito que elas falam?

São crianças, não são robôs. Elas pensam e sentem, assim como você.

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AMOR CEGO

“Por quê? Por que mentir? Por que dizer pra cada jovem que aparece “eu te amo”, se não é verdade? Sabe o quanto essa frase é forte para quem realmente sente isso por você? Não, não sabe.” – disse Mel para seu namorado.

Ele conseguiu uma bolsa de estudos na França e prometeu a Mel que ficariam juntos, apesar da distância. Ela acreditou. Ela prometeu o mesmo a ele.

Após um ano na França, ele já havia conhecido várias pessoas e feito novas amizades; sempre saía com eles quando podia. Mel decidiu passar as férias na Europa, então, eles decidiram viajar junto pelo continente.

Era lindo o amor deles nas fotos. Ele sempre escrevia nas legendas: lindinha, te amo.

Mas no fim da viagem, ele disse para ela: “Acho que está na hora de cada um seguir seu rumo… Somos muito diferentes. Não está dando certo.”

Ela ficou em choque. A viagem foi um sonho para ela, era a certeza de que o relacionamento dos dois cresceu, que eles estão mais firmes do que nunca juntos.

“Não pode ser! Você disse que me ama tantas vezes! Como pode acabar assim? Eu fiz tudo vim aqui por você e você, no fim, só queria dar um fim no nosso relacionamento? Por quê? Por que mentir?”

Ele nada disse.

Era o fim.

Naquele dia, Mel começou a relembrar os momentos juntos, principalmente durante a viagem e notou a presença de uma mulher sempre por perto. Um dia, antes de voltar para o Brasil, ela viu os dois juntos de mãos dadas. Ela sabia. Ele esteve traindo-a.

Ela se sentiu envergonhada por ter sido enganada. Não queria que ninguém soubesse, queria ficar escondida para sempre.

Já no avião, ela teve tempo o suficiente para pensar que ele era o errado. Ele deveria se envergonhar; ele é um mentiroso, um traidor, uma pessoa que não tem o menor respeito pelas outras pessoas. Mas o que mais a deixou triste foi saber que a pobre mulher que está com ele acredita nele. Talvez ela tenha sido manipulada por ele e acreditado nas promessas de amor ou talvez ela seja como ele.

Ainda assim, Mel não conseguia entender como essa mulher pode se aproximar de uma cara comprometido, sendo que ela sabia disso. Não sabe o sofrimento que é ser traída? Ser trocada? Ser tratada como qualquer coisa que as pessoas sempre jogam fora quando acham algo melhor? Não sabe que ele pode fazer isso com qualquer uma?

Ela nunca vai entender.

Mel foi cega, porque o amor é cego.

 

EU LEMBRO DO SEU ATO RACISTA

Eu me lembro, quando eu estava no ensino fundamental 1, minha mãe costumava me levar para a escola de a pé e um garoto loiro, andando de bicicleta, começou a nos seguir até chegar na escola. Ele ficou fazendo perguntas para minha mãe:

Ele: Qual o nome dela?

Mãe: Mariazinha.

Ele: Mas ela não parece ter esse nome, ela é diferente, tem o olho puxado, o nariz achatado…

Mãe: Mas é esse o nome dela.

Ele: Ela fala?

Mãe: Claro que fala.

Ele: Mas fala em português?

Mãe: Sim

Eu me lembro, nessa época, que minha professora faltou e separaram minha turma em pequenos grupos e cada um foi para uma sala diferente. Na sala em que eu fiquei, um garoto branco ficou falando da minha aparência: “Ela não tem o osso no nariz igual a gente tem, ela é estranha, tem o rosto deformado”. Minhas amigas disseram para eu ignorar, eu apenas olhei para ele com cara brava.

Eu me lembro, também na mesma época, durante o recreio, alguns meninos brancos, negros e pardos vinham até mim, faziam a mesma referência que os japoneses fazem quando cumprimentam alguém que respeitam muito, e falavam: “arigatou, sayonara!” e eu lembro que as pessoas ao redor riam ou ignoravam. Eu ignorava.

Eu me lembro, quando estava no ensino fundamental 2, durante uma apresentação em dupla, na aula de inglês, um garoto negro perguntou para professora, quando eu e minha colega fomos apresentar: “mas professora, e se ela confundir e começar a falar em japonês?”. A professora é negra e disse: “amigo, ela é descendente de japoneses, é brasileira, isso que você falou não tem sentido”. Mas ele insistiu: “Não, eu sei… Mas e se ela confundir…”. A professora: “sabe o que eu acho? Que isso é preconceito. Eu sou negra, você também e ela é amarela e tá quieta, então faz o mesmo e respeita”. Fingi não ter ouvido as asneiras do garoto e fiz minha apresentação.

Eu me lembro, quando estava no ensino médio, andando com duas amigas na hora do intervalo, uns três garotos brancos e pardos estavam num canto e, quando passamos por eles, eles disseram: “arigatou, sayonara”.

Eu me lembro, nessa época, sempre que estava sem meus pais por perto, tanto na rua como na escola, algumas crianças e adolescentes negros, brancos e pardos passavam e diziam: “arigatou, sayonara”. Eu sempre fingia que não era comigo e ficava muda, olhando para outro lado.

Eu me lembro, um ano depois de terminar o ensino médio, fui com meus pais em um festival temático, acho que era medieval, em Campinas, estávamos sentados tomando sorvete e um grupo de negros adultos passou dizendo: “arigatou, sayonara”, rindo da gente. Eu e meus pais ignoramos, mas pedi pra irmos embora imediatamente. Desde então, nunca mais fui em qualquer festival que não fosse japonês.

Essas são algumas da lembranças que tenho de todas as vezes que sofri racismo. Falei das cores das pessoas que fizeram isso comigo, porque, por mais que negros sofram racismo, eles também praticam. Sabe o que é isso? Hipocrisia. Brancos e pardos nem há o que dizer, não é? Sempre se achando superiores.

 

Obs: Índios também sofrem racismo, mas não cabe a mim falar. Mas vai aí uma reflexão: desde quando o jeito de se vestir do índio é uma fantasia, se é algo que faz parte da cultura deles, sempre fez?

O QUE ELES QUERIAM?

Quando Emília estava na 1ª série, ela tinha um estojo cheio de lápis de cor, além de todo o material escolar exigido pela escola – borracha, lápis, régua, cola -, tudo era novo, de marca boa e comprado pelos seus pais.

Logo nos primeiros dias, a primeira colega dela pediu emprestado um lápis de cor, ela emprestou e, mais tarde, a menina o devolveu. Nos dias seguintes, conforme fazia mais colegas, mais iam pedindo seus materiais emprestados.

Com o passar do tempo, seus materiais foram ficando mais gastos e sujos, alguns até sumiam e sua mãe passou a notar o que estava acontecendo com suas coisas. Ela disse, então, para Emília nunca mais emprestar suas coisas, pois as pessoas não estavam cuidando direito e nem devolvendo.

Emília ouviu sua mãe.

No dia seguinte, durante a aula, uma colega pediu uma borracha emprestada a ela e ela disse não.

“Deixa você!”

Emília não sabia o que estava acontecendo. Vários colegas passaram a sentar longe dela e muitos olhavam pra ela e começavam a cochichar.

Ela apenas negou algo que era dela. Por que ela não podia negar? Por que ela foi ameaçada por dizer não a alguém? Por que tantas pessoas se afastaram dela? Elas não eram colegas?

Emília passou um longo tempo se perguntando o que fez as pessoas se aproximarem dela.

Será que elas realmente queriam bem Emília ou queriam o que Emília tem?

Por que as pessoas querem tudo do jeito delas? Por que elas não tentam entender o motivo de alguém ter certas atitude com elas?

Tantas perguntas que ela fez pra si mesma, mas uma coisa ela teve certeza: é preciso ter confiança em si mesmo e não se deixar levar pelas atitudes de outras pessoas, não importa se isso a levará a ter menos amigos; o importante é se manter íntegro.

AÇÃO E REAÇÃO AO DIZER ‘NÃO’

Ela sempre dizia ‘sim’ pra quem ela tinha consideração. Ela tentava ajudar; deixava de lado seus deveres quando suas amigas estavam tristes e precisavam de um ombro amigo.

Ela sempre oferecia comida quando tinha, não se importava em compartilhar nem em emprestar o que tinha. Ela gostava de fazer os outros felizes e de fazer o bem.

Ela tentava dar o melhor dela sem esperar receber qualquer recompensa, exceto respeito e consideração pelo que fazia.

Entretanto, algumas pessoas começaram a abusar do jeito dela.

Eles sempre pediam algo emprestado e nunca devolviam no dia combinado, com o tempo, nem mesmo agradeciam quando um favor era feito.

Quando ela pedia ajuda, passaram a ignora-la. Uma certa vez, ela até mesmo ouviu “se vira, você vai estar sozinha”.

Quase sempre, faziam algo que ela não gostava e ela pedia para parar, mas não paravam. Por exemplo, liam em voz alta um texto que ela fez para um trabalho, o que a deixava envergonhada; riam do sotaque das pessoas – estrangeiros, principalmente -, o que ela via como preconceito.

Uma certa vez, pediram o cartão de almoço dela e ela disse ‘não’ para um deles. ‘Não’ por nunca respeitarem o que ela exigia quando emprestava algo a eles, por nunca a levarem a sério, ‘não’ por não respeitarem as pessoas por elas serem o que são. ‘Não’ pela hipocrisia deles.

Ela disse ‘não’ e o que eles fizeram? Não falaram mais com ela e, pior, difamaram-na.

Disseram que ela era ruim, que estava negando comida, pois ela tinha condições de almoçar em outro lugar, pois ela tinha obrigação de alimentar um adulto, que sai de um lugar para outro e espera depender de outras pessoas, pois ela e sua família se esforçavam para ter uma vida confortável, enquanto eles só sabiam se lamentar pelas dificuldades que a vida deram para eles e se aproveitar da boa vontade dos outros e do dinheiro que eles lutaram para ter.

Ela sabia da importância que é para ela ajudar as pessoas, mas sabia que havia um limite e, se ela não colocasse agora esse limite, nunca as pessoas a respeitariam e sempre aproveitariam dela.

Ela tinha consciência que nem todos nasceram numa família de classe média e que o país ainda tem muita desigualdade, mas ela conheceu pessoas, ao logo de sua vida, que moravam no lugares mais pobres de sua cidade, mas que sempre trabalharam para ter aquilo que queriam e nunca usaram suas dificuldades para os outros terem pena delas.

Ela sabia que não é fácil sair e bater na porta em busca de emprego, mas o que é fácil, hoje em dia? Quem não tem dificuldades?

Ficar reclamando que o loiro de olhos azuis com sobrenome complicado consegue tudo o que quer, muda a sua situação ou continua a mesma? Desejar mal a alguém que conseguiu o que você queria vai te tornar alguém melhor ou te deixar mais feliz? Aliás, desejar mal a alguém por qualquer motivo é tão prazeroso? É necessário? É bom?

Ela se sentiu mal pela difamação, mas feliz por ter dito ‘não’. Às vezes, as pessoas aprendem da pior maneira possível que, nem sempre, haverá alguém para fazer o que elas querem, que é preciso batalhar, ao invés de reclamar, para conseguir viver bem e ouvir ‘não’ faz parte da vida de qualquer um.

O que ela aprendeu? Ela aprendeu que um simples ‘não’ pode causar reações inacreditáveis em  pessoas que ela achava serem honestas, mas que isso ajuda a reconhecer as pessoas íntegras e que é seu direito dizer ‘não’ para as coisas que ela não quer fazer.