O RACISMO QUE NINGUÉM VÊ

Antes de tudo, quero deixar o que é racismo, segundo o dicionário Priberam, porque, durante muito tempo, eu acreditava que racismo dizia respeito a somente negros.

1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria.

2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc.

Encontrei esse texto no Facebook de uma mulher chamada Fabiane Ahn:

Como toda mulher, sofro agressões diariamente. Mas eu não sou só mulher. Eu também sou amarela.
As agressões a mim direcionadas não são vistas como agressões, muito menos injúrias raciais. Dizem que eu não sofro racismo. Porque racismo é contra negro e aos meus nada se vê. Mas eu sinto.
Eu sou feminista. Tem dias que são difíceis. Tem dias que ouço as frases dentro das aspas abaixo de outras ditas feministas. Tudo que transcrevi nas linhas que seguem eu realmente ouvi e ouço. Mas eu sou feminista. Então eu resisto.
“Calma! É só uma brincadeirinha!”
É uma brincadeirinha… Nadica de nada…
– Ô “japa”!
– Meu nome é…
– “Japa”!
– É sério, eu prefiro que me chame pelo meu nome…
– Hahaha!
Você prefere ser chamada pelo seu nome? Mas seu nome não importa! Bradam com orgulho de onde vem o sobrenome que carregam: “Minha avó é italiana!”; “Toda a minha família veio da Alemanha!”; “Meu avô por parte de pai é meio russo”. Mas você não importa. China? Japão? Coreia do Sul? Do Norte? Taiwan? Hahaha! É tudo a mesma coisa! Seu nome não importa. Você é a “japa”. Eu não preciso me dar ao trabalho de saber o seu nome, garota.
“Racismo? Pelo amor de Deus, você não sofre racismo, você é quase branca!!!”
Eu sou quase branca… Sou quase branca? Houve época em que ouvir tal afirmação me daria alívio. “Ufa” – pensaria, “passei despercebida”. Só que eu não sou branca. Nem “quase branca”. Não me dilua. Eu sou AMARELA.
“Até que você é bonita para uma ‘japa’.”
A dita feminista me faz sentir um lixo. “Até que” eu sou bonita. Pra uma “japa”. Porque as “japas” são horríveis. Você já parou pra reparar nelas? Tem aquela famosa lá, a Lucy Liu que chama né? Ela é bonita. É bonita pra caramba. Mas as asiáticas são feinhas né? A cara bolachuda! Hahaha, que coisa… É, não costumam ser bonitas não…
Eu cresci me achando feia. Acreditava piamente nisso. “Feia”. Olhava no espelho e a menina de 13 anos do reflexo me falava: “feia”. Olhava no espelho e tava tudo errado! O cabelo? Preto, liso, sem graça. A pele? Amarelada. O rosto? Todo redondinho, que saco, parece uma bola! Cadê o corpo? Cadê meu corpo? O corpo que refletia ali no espelho não era o suficiente. Cadê O corpo? O violão, eu quero dizer! Os peitos, a bunda, as coxas??? Não quero nem falar dos olhos… tão pequenos, puxados… Escuros… Que saco… Não é à toa que perguntam se eu enxergo alguma coisa com eles… Queria ter olhos azuis.
“Seu corpo parece uma criança! Hahaha.” – ria a dita feminista, enquanto caçoava da minha falta de curvas mesmo aos quase 30 anos. Só que eu não sou a menina de 13 anos parada na frente do espelho sem saber por que via tanta coisa errada num corpo que não tinha nada de errado. Eu não queria mudar meu biotipo. Eu queria mudar a minha RAÇA. Eu queria ser branca, porque ser branca significaria não ser zombada na escola. Porque ser branca significaria ser tirada pra dançar na festinha americana. Ser branca significaria ser BONITA.
Eu nunca fui feia. Eu só nunca fui branca. E isso era tudo que tinha de “errado” comigo.
Toda vez que dizem pra uma mina fora dos padrões que “até que ela é bonita pra uma [insira etnia]”, ferem nossa história de aceitação, nossa cultura, nossos traços, enquanto mais uma vez, enfiam em nossas goelas abaixo esse padrão que não representa nenhuma de nós.
A dita feminista se preocupa com sua menstruação, seu corpo, seu útero. Procura saber sobre o coletor menstrual. Muito melhor! Mas no meio tempo me diz: “[…] falando nisso, estive discutindo com uns conhecidos nossos… queria te perguntar uma coisa… a sua vagina é na horizontal mesmo? Hahaha”. Porque eu sou asiática. Por isso a piada. Hahaha! Você não achou engraçado? Era pra ser engraçado! A sua vagina, pô!
“Vocês são bem submissas, né?” – pergunta a conhecida.
Ao passo que da mulher negra fazem a imagem da mulher agressiva, de nós, asiáticas, fazem a imagem da mulher submissa. A que não reclama. Que ri com as mãos à boca. Tímida. Internaliza. Nunca exterioriza. Flor do Oriente. Delicada, fala pouco, fraca, frágil, inocente, ingênua, DÓCIL. Porém pronta pra ser fetichizada. Porque nós, mulheres de cor, somos fetiches.
Caralho, eu não sou nenhuma dessas coisas!!!
“Calmaaa! Caramba, de onde saiu isso? Não sabia que vocês eram bravas assim, eu hein!”
Porque a mulher asiática é submissa. Não é? Era pra ser!
“Deixa eu te apresentar meu amigo, ele SÓ gosta de orientais!”
“Eu já fiquei com duas asiáticas antes de você.“
“Você é muito exótica” – eu não sou fruta, eu não sou bicho e tem mais 1,5 bilhão de pessoas de onde eu descendo.
Eu sou “exótica” ou eu NÃO SOU BRANCA?
A pessoa não gostou do que eu falei? “Volta pra tua terra!”
A pessoa não gostou de mim? “Volta pra tua terra!”
Eu existo: “Volta pra tua terra!”
As manas negras são acolhedoras. Acolhedoras demais. Elas sofrem a pior face do racismo, veem a cara mais feia e mais suja dele. Desde sempre. Souberam, já quando crianças, o que lhes custou ter cor na pele e não ter o nariz fininho. Nós amarelas temos isso em comum com elas. Tô tentando comparar? Tô não. Tem nem comparação. Tô tentando entender de onde vem a empatia delas.
Se você não tá dentro dos padrões e se acha linda, dá um abraço aqui mana. Você é foda pra caralho! Você ouve desaforo e sua cabeça tá lá erguida? Você é foda pra caralho!!!
Não quero nem estou diminuindo a luta individual nem interna de cada uma, inclusive as meninas que teoricamente estão “dentro do padrão” e mesmo assim lutam com sua auto-estima. Mas é libertador ter orgulho da sua cor, juntar todas aquelas coisas que dizem que são feias em você e ainda se achar bonita PRA CARALHO!
EU SOU AMARELA. O SEU FEMINISMO ME ENXERGA?

Eu li esse texto e me identifiquei em cada linha.

Sempre morei num bairro periférico, negros aqui são comuns, amarelos, não. Eu era zoada, tanto por brancos, quanto por negros. Eles passavam por mim e imitavam o cumprimento de abaixar a cabeça com as mãos juntas e falavam “arigatou… sayonara…”. Uma vez, na aula de inglês, a professora pediu para eu ler uma frase e um garoto negro perguntou para ela: “mas prof, e se ela confundir e ler em japonês?” A parte boa? A professora me defendeu: “isso é preconceito, cara, chega.”

Por causa disso, eu tinha uma certa dificuldade em entender porque o racismo contra negros era algo especial, porque todos reconheciam que não se pode falar de tal forma sobre eles ou com eles. Mas por que eles podiam praticar atos desrespeitosos contra outras pessoas? Eu não me fechei aos negros –  nem brancos, nem nenhuma outra raça. E descobri que o que os levam agir assim é a tal hipocrisia e não são todos que agem dessa forma, apenas os ignorantes. Eu aprendi e reconheci a luta deles.

Sempre quando se referiam a mim, falavam “japonesa, japa, japinha”. Quando eu era criança, meus olhos enchiam-se de lágrimas, porque eu tenho nome e eles não queriam saber qual é. Ser chamada assim foi algo que eu precisei me acostumar, nunca gostei, mas era o único jeito de não me queimar com as pessoas. Também precisei me acostumar a ouvir perguntas do tipo: “você fala japonês? Você come de palitinho? Qual a diferença entre japoneses e chineses? O pênis de japonês é mesmo menor?…”

“Mas é tudo brincadeira, eu ouvi falar que é assim, é só curiosidade…”. Ah sim, claro… Mas você não pergunta pro descendente de italianos se ele fala italiano, se ele só come pizza e macarrão, o tamanho do pênis de italiano. Você também não chama um negro de áfrica, mas chamar um japonês de japa está tudo bem, né?

As pessoas, em geral, me veem como uma menina delicada, fofinha, quietinha e depois que me conhecem, dizem que eu nem pareço japonesa. O que seria uma japonesa? Por que as pessoas dizem e imaginam essas coisas?

Diversas vezes, riam de mim, faziam piada de mau gosto, diziam que japoneses, chineses, coreanos são todos iguais. Uma vez, numa aula, um aluno fez uma pergunta e o professor pediu pra eu tampar os ouvidos, tampei e ele respondeu ao aluno: tudo igual é um caminhão cheio de japoneses. A sala toda riu, ele disse rindo que era brincadeira, eu fiquei sem graça, tentei rir, porque, caso contrário, diriam que eu sou chata, não sei levar na brincadeira.

Até hoje, eu tenho que aguentar “brincadeiras” desse tipo; até hoje, alguém da minha roda de amigos puxa os olhos para mim; até hoje, me falam: você é japa e não tira dez nas provas? Até hoje, me dizem que sou uma “japa fake”, porque não sei falar japonês; até hoje, me falam que eu deveria saber de cabo a rabo cada detalhe do Japão; até hoje, me fazem passar por diversos constrangimentos e eu não brigo, eu não discuto, finjo que não é por mal, porque dizem que japoneses não sofrem racismo.

“Mas não foi mesmo por mal, era brincadeira. Juro!” Até onde vai a brincadeira? Até onde vai sua curiosidade? Até onde vai, se é que há, bom senso? Por que ninguém pergunta se o descendente de alemão fala alemão? Se o descendente de italiano sabe tudo da Itália? “Ah, mas japonês é minoria numa sala de aula ou numa roda de amigos, quando a gente vê, vem as perguntas e tudo mais.” Com certeza, a maioria é brasileiro, né? Se você estudou, deveria saber que o Brasil é um país que foi colonizado por portugueses, antes deles, os índios eram quem ocupavam esse país. Com o passar dos anos, italianos, alemães, japoneses, africanos, etc vieram e fazem parte da população do Brasil. Então, como afirmar que, numa roda de amigos, quem é maioria e minoria? Aliás, pura curiosidade, poucos sabem: quem nasce no Brasil é brasileiro, assim como quem nasce no Japão é japonês e assim por diante.

Meu corpo sempre foi pequeno. Enquanto, aos 14 anos, as meninas da minha sala já estavam peitudas e bundudas, eu estava reta. Uma vez, uma menina disse: “gente, ela é retinha, credo!”. Desde então, naquela época, eu usava sempre um moletom pra disfarçar meus peitos minúsculos. Depois de alguns anos, ainda seca, passei a usa sutiã com bojo, porque qualquer lugar que eu ia, as pessoas olhavam para meus peitos e viam que eu mal tinha. E ainda hoje, não tenho.

As pessoas falam de igualdade para os negros, LGBTs e gordos. Ok, mas e o resto? Porque o racismo contra amarelos, por exemplo, é descartável, perto da deles? Eu digo “por exemplo”, porque não são só amarelos que sofrem racismo e passam despercebidos; tem muito mais.  Não é comparar, não. Não se compara preconceitos, racismos… Nunca. A gente quer é igualdade, entende? E enquanto a gente fingir que o preconceito e racismo estão restritos a tais grupos, nunca haverá igualdade.

 

O RESPEITO PELA VIDA

Falar de política, nesses tempos, tem sido bem perigoso; todos sabem, o país tá dividido. Basicamente, há os coxinhas e os petistas e o pior de tudo? É o quanto isso tem afetado o comportamento das pessoas, fazendo florescer o ódio dentro de cada uma.

Bom, o blog é meu, então, eu tenho o direito de escrever a minha opinião, quem não gostar, faz um blog e ficamos todos bem.

O Brasil está uma zona. A ambição – que eu considero algo bom – tornou-se algo doentio e revelou o ódio em cada um. Os que estão no poder estão fazendo o de tudo para tirar os direitos da população; os ricos só dizem que não ligam, pois não são afetados; e quem pode fazer a diferença entre os que estão não poder, estão sendo “atacados” ou melhor: eliminados.

Eu já tava bem frustrada só com isso, mas o que me deixou extremamente frustrada e triste, mas acima de tudo, me fez sentir medo, foi os comentários e as atitudes à respeito da morte da ex-primeira-dama Dona Marisa Letícia.

Eu sou contra o Temer e sempre fui contra o impeachment, mas, SE eu fosse coxinha, eu jamais seria capaz de comemorar a morte de alguém, independente da opinião política dela e de qualquer outra coisa, mesmo se fosse um bandido. Por quê? Porque é desumano. Trata-se de uma vida e há pessoas que tinham laços com quem morreu e, agora, está em pedaços. Imagina que sua mãe/pai/avós/esposa/marido/namorado(a)/amigo(a) tivesse morrido e alguém comentasse “finalmente… vai tarde… vai abraçar o capeta…”, você ia gostar?

Se a resposta for sim, procure um psiquiatra.

Sabe o que conseguiu superar esses comentários de seres bizarros na internet? Óbvio, a conversa dos médicos. Aliás, seriam médicos mesmo ou assassinos? Talvez nenhum desses dois, talvez fossem monstros mesmo.

“Ah, mas eles já estão respondendo pelo o que fizeram…” Meu caro, você acha mesmo que eles são os únicos médicos a fazer esse tipo de coisa? Passar informações de quem está no hospital pra outra de fora é errado, da mesma fora que é errado os médicos do mesmo hospital ficarem conspirando contra uma paciente.

Já pensou que você é internado, uma médica reconhece você e passa informações do seu estado para um grupinho que te conhece e começam a fazer comentários a seu respeito? Você ia amar, né? Só que não. E sonha se você acha que os comentários serão bons.

Essa conversa que vazou dos médicos e algo comum no dia a dia de vários médicos, mas ninguém descobre e, se descobrissem, faltariam muitos médicos nesse país.

O meu medo? É, um dia, um médico desse tipo me atender, atender a minha família… É eu e todos os demais não serem atendidos adequadamente, porque o médico não cumpre o seu dever dentro da ética estabelecida, porque ele coloca os sentimentos pessoais antes dos profissionais, porque ele acha que o fato de ter uma vida nas mãos dele, obrigue-o a julgar quando uma pessoa deve morrer e até onde ela deve sofrer.

Onde foi parar o respeito pela vida? E o que se entende por amor pela profissão?

PODE CHEGAR, PERGUNTAR, MAS SEMPRE RESPEITANDO

A correria da faculdade me faz ficar ausente no blog, mas jamais me fará deixar de refletir sobre o que me cerca. Dentre todas as coisas que aconteceram comigo nesse tempo, hoje, uma delas me fez vir aqui escrever imediatamente; preciso desabafar.

Tenho um jeito super tímido, quieto, ando muito com meninas, mas consigo ter relações amigáveis com rapazes; tenho um jeito de me vestir que é bem básico – camiseta de cor neutra, calça jeans e tênis -, gosto de roupas que não fiquem grudentas demais no meu corpo; gosto de cuidar do meu rosto, sempre lavando com sabonete indicado, passando creme e protetor solar; não sou de ficar falando com minhas amigas quando me interesso por algum garoto; tenho amigos gays, héteros e bissexuais.

Talvez o meu jeito quieto e minhas roupas neutras fazem as pessoas terem dúvidas quanto à minha sexualidade. É uma dúvida que não é da conta de ninguém, mas que eu não me importo em responder se me perguntarem. Para matar a curiosidade: sou hétero. Não escolhi ser assim. Ninguém escolhe.

Você ainda pode ter suas dúvidas, mas eu não posso fazer nada, se não acredita. A única coisa que sou capaz de fazer é perguntar por que você não acredita?

A sociedade, a mídia, sei lá mais o quê implantou na nossa cabecinha oca que gays são afeminados, que lésbicas são machos, que bissexuais são uma mistura disso(?). Enfim, enfiaram na gente como cada pessoa se comporta devido seus gostos. Eu tive esse preconceito, também. Mas meu preconceito teve fim quando eu tive aula de redação com uma professora fantástica, que acredito já ter falado dela aqui no blog. Ela tem uma personalidade forte, uma postura firme na sala de aula e outras coisas que eu considerava de lésbica.

Um dia, então, ela disse que a pergunta que ela mais recebe dos alunos é “você é lésbica?” e ela disse que não, ela tentou, mas não deu certo; ela é mesmo hétero. A vida quis assim, oras. E, então, teve toda aquela reflexão na aula do porquê das pessoas acharem que o jeito de agir e tantas outras características definem a sexualidade do indivíduo.

As pessoas são o que elas são. Eu me sinto à vontade em ser simples e caladona, mas isso não quer dizer que eu seja lésbica. Cada um é de um jeito, porque se sentem confortáveis em serem assim.

E eu estou escrevendo pois, hoje, passei por algo bem desagradável, num passei no shopping, com minha amiga A e sua namorada B. B ficou me jogando diversas indiretas de que sou bissexual, fez brincadeiras chatas, disse que eu sou tão hétero quanto uma menina que, segundo ela, mente dizendo ser hétero. Não tenho motivo pra mentir. Eu sou o que sou. Todavia, o que mais me incomodou foi o fato de ela não ter me perguntado se eu sou mesmo hétero, já que é algo que parece despertar a curiosidade dela. Não tem nada de errado em ter dúvidas; se quer saber, é só perguntar e a vida segue. O que nunca pode faltar é o respeito.

E o que eu quero passar para quem estiver lendo esse texto, se ainda não estiver claro, é: nunca julgue as pessoas, não tire conclusões precipitadas e, se você tiver dúvida, pergunte, respeitando a resposta que ouvir. Se você ainda acha que a pessoa  está mentindo, isso é problema seu. A vida dos outros não lhe diz respeito e você está longe de ser um detetive.

UNIVERSIDADE: FORMADOR DE MARIONETES?

Universidade é um lugar que cada dia aprendemos algo novo, seja dentro ou fora de sala. Contudo, esse aprendizado constante depende de nós, do nosso esforço em querer aprender e descobrir e, para tanto, é preciso ter a mente aberta. Nesse sentido, é preciso que tenhamos diferentes pontos de vista e vontade de ouvir novas opiniões, analisando cada uma.

A universidade que estudo fica no interior do estado de SP, é uma das melhores do Brasil e está passando por uma greve feita pelos estudantes, decidida em assembleia geral dos estudantes. Estudantes em greve; entretanto, professores, não.

E o que acontece? Os estudantes impedem as aulas de acontecerem fazendo o piquete. Há muitos professores que tentam dar aula, aplicar provas e passar por cima da greve. Alguns passam dos limites e acabam falando palavrões, ofendendo, agredindo… Tanto professores quanto alunos. Quem começa? Eu não sei, eu não cheguei a ver o começo de nenhuma briga, assim como muita gente que estuda lá também não viu. Ainda assim, como estudante dessa Universidade, insisto em deixar minha opinião e também um recado para aqueles que nem ao menos estudaram ou estudam lá, assim como pessoas que nem ao menos entraram em qualquer universidade e estão fazendo comentários extremamente ignorantes.

Tem muita gente achando um absurdo os estudantes fazerem a greve e que o professor tem toda a obrigação de não aderir a ela. Realmente, o professor não tem obrigação, mas quando os professores decidem deliberar greve por melhores condições que beneficiem-nos, os alunos são obrigados a aderir – sem professor não tem aula, certo? -, além disso, muitos estudantes apoiam os professores na luta deles. Mas, quando são os estudantes lutando por condições que beneficiem os próprios estudantes, os professores não apoiam, querem apenas fazer o trabalho deles, afinal, eles são bem pagos e a vida dos estudantes não lhes dizem respeito.

Vejo comentários de pessoas totalmente alienadas sobre o motivo da greve, há diversas páginas que explicam o motivo, a questão das moradias e cotas são as principais. Falando em especial da moradia, imagina que você passou na melhor universidade do país, mas não tem condições para estudar nela, por falta de dinheiro para morar em algum lugar. É a situação de muitos estudantes e a moradia estudantil é uma forma do estudante poder estudar na universidade e fazer a diferença dentro dela e ser um profissional excelente. Além disso, muitos alunos da moradia tem que conciliar a faculdade com trabalho para poder se sustentarem.

E, então, eu vejo mais comentários: “bando de vagabundos… vão estudar”, “estão numa das melhores do país e só fazem baderna…”, “o país em crise e esses filhinhos de papai fazendo isso…”, “são uma vergonha para a Universidade…”, “deveriam bater/prender/ puni-los…”.

A ignorância dessa gente que faz esses tipos de comentários é o câncer desse mundo. O estudantes não estão aí para agirem como robôs, somos seres pensantes e a Universidade existe justamente para isso. O fato de uma pessoa fazer medicina não quer dizer que ela deva pensar apenas em acabar com as doenças, fazer engenharia não quer dizer que ela deva pensar apenas em construir prédios, fazer educação física não quer dizer que ela deva pensar só em esportes…

Independentemente do curso, estar na Universidade é acreditar num mundo melhor e que há como fazer a diferença nesse mundo doido que tantos seres humanos fazem questão de destruir a cada dia que passa. Os estudantes que fazem parte da greve estão ali pois tem noção da realidade de muita gente e querem lutar para que a Universidade tenha espaço para essa gente que tem potencial para construir um mundo melhor. Universidade não é lugar para criar marionetes, embora pareça, é lugar para ensinar os alunos a pensarem, afinal, é um lugar com pessoas de todos os cantos do país – e até do mundo – com perfis diferentes, mas que estão ali, pois acreditam que podem ser profissionais de qualidade, abertos para discutir os mais diversos assuntos e lutar por aquilo que acreditam.

 

O vídeo abaixo é da Lady Gaga, durante uma palestra na Universidade de Yale, em que ela questiona se a Universidade quer que os estudantes tornem-se fantoche deles. Todos temos direitos a escolhas e de fazer aquilo que achamos correto. Nos próximos anos, os resultados positivos dessa greve oferecerão oportunidades para jovens que jamais imaginariam que, um dia, estariam estudando numa universidade tão reconhecida.

UM TEXTO SUPOSTAMENTE EXPLICATIVO, MAS QUE É MESMO

Estranho o título do texto, não? Vocês logo entenderão, assim que lê-lo.

Já falei, mas vou falar mais e muito mais, até a galera entender a verdadeira importância de saber português. Ainda que a escrita seja cheia de falhas, ainda que não se saiba todas as regras gramaticais, é de suma importância saber interpretar.

“Por quê?”

Porque a gente anda cercada de veículos de informação que  atuam colocando a opinião pessoal de tal forma que quem lê não percebe que está sendo influenciado.

“Como?”

Vamos pegar um assunto do momento que não tem a ver com política: o caso da jovem estuprada por cerca 30 homens. Lendo o site do G1, observa-se palavras como teria sido e supostamente, o que isso quer dizer? Que pode não ter ocorrido. Contudo, a gente sabe que ocorreu. Porém, por que usar essa palavra? Para defender o(s) agressor(es).

“Jovem faz exames após suspeita de sofrer estupro coletivo…”

“Menina teria sido abusada…”

“A jovem de 16 anos que teria sido vítima de um estupro coletivo…”

“… a neta pode ter sido violentada…”

“… vídeo após supostamente ter sido estuprada…”

“Mas ainda não é suficiente para afirmar essa defesa.”

É sim e, se quer mais, tudo bem. O texto do G1 ainda contém um parágrafo em que cita a vida da vítima, como se isso fosse necessário em uma matéria cujo foco é a forma em que a vítima foi violentada.

“De acordo com a avó da menina, ela costuma ir para comunidades desde os 13 anos e, às vezes, passa alguns dias sem dar notícias. Ainda segundo a avó, a garota é usuária de drogas há cerca de quatro anos. No entanto, segundo ela, nunca recebeu notícias de que a neta tenha sido vítima de outros abusos. A jovem é mãe de um menino de 3 anos.”

Independente do histórico da vítima, estupro é estupro; é violência; é a prova de que homens ainda tratam mulheres como marionetes, abusando do seu corpo, passando por cima de suas vontades e não as vendo como seres humanos.

A gente vive numa sociedade extremamente machista. Extremamente mesmo; é um fato; não negue.

Todo dia, diversas mulheres vão à luta tentar mudar essa característica do nosso mundo, mas dói tanto quando notícias como essa aparecem e mostram que o feminismo ainda tem uma luta grande contra o machismo. Até quando mulheres serão tratadas de forma inferior a homens? Até quando homens terão liberdade para abusar do corpo e das vontades das mulheres? Até quando mulheres serão vistas como objeto para dar prazer aos homens?