EU LEMBRO DO SEU ATO RACISTA

Eu me lembro, quando eu estava no ensino fundamental 1, minha mãe costumava me levar para a escola de a pé e um garoto loiro, andando de bicicleta, começou a nos seguir até chegar na escola. Ele ficou fazendo perguntas para minha mãe:

Ele: Qual o nome dela?

Mãe: Mariazinha.

Ele: Mas ela não parece ter esse nome, ela é diferente, tem o olho puxado, o nariz achatado…

Mãe: Mas é esse o nome dela.

Ele: Ela fala?

Mãe: Claro que fala.

Ele: Mas fala em português?

Mãe: Sim

Eu me lembro, nessa época, que minha professora faltou e separaram minha turma em pequenos grupos e cada um foi para uma sala diferente. Na sala em que eu fiquei, um garoto branco ficou falando da minha aparência: “Ela não tem o osso no nariz igual a gente tem, ela é estranha, tem o rosto deformado”. Minhas amigas disseram para eu ignorar, eu apenas olhei para ele com cara brava.

Eu me lembro, também na mesma época, durante o recreio, alguns meninos brancos, negros e pardos vinham até mim, faziam a mesma referência que os japoneses fazem quando cumprimentam alguém que respeitam muito, e falavam: “arigatou, sayonara!” e eu lembro que as pessoas ao redor riam ou ignoravam. Eu ignorava.

Eu me lembro, quando estava no ensino fundamental 2, durante uma apresentação em dupla, na aula de inglês, um garoto negro perguntou para professora, quando eu e minha colega fomos apresentar: “mas professora, e se ela confundir e começar a falar em japonês?”. A professora é negra e disse: “amigo, ela é descendente de japoneses, é brasileira, isso que você falou não tem sentido”. Mas ele insistiu: “Não, eu sei… Mas e se ela confundir…”. A professora: “sabe o que eu acho? Que isso é preconceito. Eu sou negra, você também e ela é amarela e tá quieta, então faz o mesmo e respeita”. Fingi não ter ouvido as asneiras do garoto e fiz minha apresentação.

Eu me lembro, quando estava no ensino médio, andando com duas amigas na hora do intervalo, uns três garotos brancos e pardos estavam num canto e, quando passamos por eles, eles disseram: “arigatou, sayonara”.

Eu me lembro, nessa época, sempre que estava sem meus pais por perto, tanto na rua como na escola, algumas crianças e adolescentes negros, brancos e pardos passavam e diziam: “arigatou, sayonara”. Eu sempre fingia que não era comigo e ficava muda, olhando para outro lado.

Eu me lembro, um ano depois de terminar o ensino médio, fui com meus pais em um festival temático, acho que era medieval, em Campinas, estávamos sentados tomando sorvete e um grupo de negros adultos passou dizendo: “arigatou, sayonara”, rindo da gente. Eu e meus pais ignoramos, mas pedi pra irmos embora imediatamente. Desde então, nunca mais fui em qualquer festival que não fosse japonês.

Essas são algumas da lembranças que tenho de todas as vezes que sofri racismo. Falei das cores das pessoas que fizeram isso comigo, porque, por mais que negros sofram racismo, eles também praticam. Sabe o que é isso? Hipocrisia. Brancos e pardos nem há o que dizer, não é? Sempre se achando superiores.

 

Obs: Índios também sofrem racismo, mas não cabe a mim falar. Mas vai aí uma reflexão: desde quando o jeito de se vestir do índio é uma fantasia, se é algo que faz parte da cultura deles, sempre fez?

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O QUE FAZ FALTA

No post passado, eu disse que os poucos amigos que tenho na faculdade não tem nada a ver comigo. Eu não quero dizer que não gosto deles, eu gosto, sim. Eles me ajudam com as matérias na faculdade, tiram as dúvidas que eu tenho em alguns exercícios, me dão dicas de como estudar, me lembram o porquê de estar na faculdade, enfim, eles estão sempre ali pra tudo que eu preciso na faculdade.

Mas por que eu disse que a gente não tem nada a ver?

Porque a gente não tem assunto fora da faculdade.

Queria muito, mas muito uma relação íntima no sentido de ter coisas em comum com outra pessoa. Por exemplo, ter alguém pra conversar sobre Game of Thrones, comentar a nova música de uma banda de rock, falar sobre maquiagens da M.A.C, ir em bons restaurantes, fazer compras no shopping, viajar… Sabe? Essas coisas, amizade que a gente sabe que vai levar quando a faculdade terminar ou quando a gente estiver de férias, qualquer tempinho que a gente tiver fora da faculdade.

Tenho, sim, amiga como descrevi. Mas o que dói é ela morar longe e eu raramente vê-la. Sinto um falta imensa de alguém do meu lado todos os dias, que me faça, realmente, me sentir em casa quando eu estiver na faculdade ou em qualquer lugar.

Amizades do tipo Blair & Serena, Marissa & Summer, Chuck & Nate, Seth & Ryan, Cristina & Meredith, Tomoyo & Sakura, Brooke & Peyton… Amizades que têm desentendimento, mas tem muito assunto, muito companheirismo, muitos pontos em comum e que você não quer perder por nada, porque você sabe que essa pessoa é a melhor pessoa pra se ter por perto.

 

O QUE ME TRAVA

Gosto daqui, de escrever, de expressar meus sentimentos em palavras, de contar histórias e de ninguém saber quem sou eu.

É  tão bom ter esse espaço pra mim, embora eu nem sempre passe por aqui. E eu me sinto muito mal pela minha ausência nesse cantinho, porque a faculdade tem consumido todas as minhas energias e porque minha vontade viver tem desaparecido.

Oh, não! Não tem nada a ver com 13RW ou o jogo da baleia…

Eu sempre digo que amo meu curso e eu amo com todo o meu coração. Entretanto, minha vontade de ir até a faculdade e de estudar tem desaparecido. Parece preguiça, eu sei. Às vezes, eu acho que é preguiça, mas eu não me sinto com preguiça. Eu sinto que não sou boa o suficiente para estar onde estou; por mais que eu me esforce, as outras pessoas são sempre melhores. Sinto que não sou querida na faculdade e que, os poucos colegas que tenho, não tem nada a ver comigo. Eles realmente são muito diferentes de mim, mas fico perto deles, porque eles também não se dão bem com a turma em geral.

Sabe aquela sensação de não pertencimento? É exatamente assim que eu me sinto. E não é só na faculdade. Morar onde moro  nunca me deixou feliz, sempre achei que meu lugar fosse em outra cidade, mas, quando vou a para outra cidade, sinto que meu lugar é aonde moro.

Eu me odeio por ser assim, por ser tão complicada e, principalmente, por ser medrosa. Tenho tantos medos. Medo de sair de casa, de conhecer alguém, de expressar minha opinião, de falar em público, de usar as roupas que eu quero, de ser julgada. O fato do meu blog ser anônimo é justamente pelo medo… Medo das pessoas que eu conheço rirem de mim por eu ter um blog, rirem das coisas que eu escrevo…

Meu medo me trava. Eu quero dizer para todos vocês não terem medo, mas como posso? Eu sou a pessoa mais medrosa que eu conheço. Seria hipocrisia.

Eu comecei terapia com uma nova psicóloga, a gente vai trabalhar nos meus medos, então, o que eu posso dizer é: procure um profissional. Eu sei, dá medo de ir até um, mas pensa que é um profissional, alguém que terá a chave para te ajudar, embora o caminho até ele alcançar essa chave, seja longo.

 

O RACISMO QUE NINGUÉM VÊ

Antes de tudo, quero deixar o que é racismo, segundo o dicionário Priberam, porque, durante muito tempo, eu acreditava que racismo dizia respeito a somente negros.

1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria.

2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc.

Encontrei esse texto no Facebook de uma mulher chamada Fabiane Ahn:

Como toda mulher, sofro agressões diariamente. Mas eu não sou só mulher. Eu também sou amarela.
As agressões a mim direcionadas não são vistas como agressões, muito menos injúrias raciais. Dizem que eu não sofro racismo. Porque racismo é contra negro e aos meus nada se vê. Mas eu sinto.
Eu sou feminista. Tem dias que são difíceis. Tem dias que ouço as frases dentro das aspas abaixo de outras ditas feministas. Tudo que transcrevi nas linhas que seguem eu realmente ouvi e ouço. Mas eu sou feminista. Então eu resisto.
“Calma! É só uma brincadeirinha!”
É uma brincadeirinha… Nadica de nada…
– Ô “japa”!
– Meu nome é…
– “Japa”!
– É sério, eu prefiro que me chame pelo meu nome…
– Hahaha!
Você prefere ser chamada pelo seu nome? Mas seu nome não importa! Bradam com orgulho de onde vem o sobrenome que carregam: “Minha avó é italiana!”; “Toda a minha família veio da Alemanha!”; “Meu avô por parte de pai é meio russo”. Mas você não importa. China? Japão? Coreia do Sul? Do Norte? Taiwan? Hahaha! É tudo a mesma coisa! Seu nome não importa. Você é a “japa”. Eu não preciso me dar ao trabalho de saber o seu nome, garota.
“Racismo? Pelo amor de Deus, você não sofre racismo, você é quase branca!!!”
Eu sou quase branca… Sou quase branca? Houve época em que ouvir tal afirmação me daria alívio. “Ufa” – pensaria, “passei despercebida”. Só que eu não sou branca. Nem “quase branca”. Não me dilua. Eu sou AMARELA.
“Até que você é bonita para uma ‘japa’.”
A dita feminista me faz sentir um lixo. “Até que” eu sou bonita. Pra uma “japa”. Porque as “japas” são horríveis. Você já parou pra reparar nelas? Tem aquela famosa lá, a Lucy Liu que chama né? Ela é bonita. É bonita pra caramba. Mas as asiáticas são feinhas né? A cara bolachuda! Hahaha, que coisa… É, não costumam ser bonitas não…
Eu cresci me achando feia. Acreditava piamente nisso. “Feia”. Olhava no espelho e a menina de 13 anos do reflexo me falava: “feia”. Olhava no espelho e tava tudo errado! O cabelo? Preto, liso, sem graça. A pele? Amarelada. O rosto? Todo redondinho, que saco, parece uma bola! Cadê o corpo? Cadê meu corpo? O corpo que refletia ali no espelho não era o suficiente. Cadê O corpo? O violão, eu quero dizer! Os peitos, a bunda, as coxas??? Não quero nem falar dos olhos… tão pequenos, puxados… Escuros… Que saco… Não é à toa que perguntam se eu enxergo alguma coisa com eles… Queria ter olhos azuis.
“Seu corpo parece uma criança! Hahaha.” – ria a dita feminista, enquanto caçoava da minha falta de curvas mesmo aos quase 30 anos. Só que eu não sou a menina de 13 anos parada na frente do espelho sem saber por que via tanta coisa errada num corpo que não tinha nada de errado. Eu não queria mudar meu biotipo. Eu queria mudar a minha RAÇA. Eu queria ser branca, porque ser branca significaria não ser zombada na escola. Porque ser branca significaria ser tirada pra dançar na festinha americana. Ser branca significaria ser BONITA.
Eu nunca fui feia. Eu só nunca fui branca. E isso era tudo que tinha de “errado” comigo.
Toda vez que dizem pra uma mina fora dos padrões que “até que ela é bonita pra uma [insira etnia]”, ferem nossa história de aceitação, nossa cultura, nossos traços, enquanto mais uma vez, enfiam em nossas goelas abaixo esse padrão que não representa nenhuma de nós.
A dita feminista se preocupa com sua menstruação, seu corpo, seu útero. Procura saber sobre o coletor menstrual. Muito melhor! Mas no meio tempo me diz: “[…] falando nisso, estive discutindo com uns conhecidos nossos… queria te perguntar uma coisa… a sua vagina é na horizontal mesmo? Hahaha”. Porque eu sou asiática. Por isso a piada. Hahaha! Você não achou engraçado? Era pra ser engraçado! A sua vagina, pô!
“Vocês são bem submissas, né?” – pergunta a conhecida.
Ao passo que da mulher negra fazem a imagem da mulher agressiva, de nós, asiáticas, fazem a imagem da mulher submissa. A que não reclama. Que ri com as mãos à boca. Tímida. Internaliza. Nunca exterioriza. Flor do Oriente. Delicada, fala pouco, fraca, frágil, inocente, ingênua, DÓCIL. Porém pronta pra ser fetichizada. Porque nós, mulheres de cor, somos fetiches.
Caralho, eu não sou nenhuma dessas coisas!!!
“Calmaaa! Caramba, de onde saiu isso? Não sabia que vocês eram bravas assim, eu hein!”
Porque a mulher asiática é submissa. Não é? Era pra ser!
“Deixa eu te apresentar meu amigo, ele SÓ gosta de orientais!”
“Eu já fiquei com duas asiáticas antes de você.“
“Você é muito exótica” – eu não sou fruta, eu não sou bicho e tem mais 1,5 bilhão de pessoas de onde eu descendo.
Eu sou “exótica” ou eu NÃO SOU BRANCA?
A pessoa não gostou do que eu falei? “Volta pra tua terra!”
A pessoa não gostou de mim? “Volta pra tua terra!”
Eu existo: “Volta pra tua terra!”
As manas negras são acolhedoras. Acolhedoras demais. Elas sofrem a pior face do racismo, veem a cara mais feia e mais suja dele. Desde sempre. Souberam, já quando crianças, o que lhes custou ter cor na pele e não ter o nariz fininho. Nós amarelas temos isso em comum com elas. Tô tentando comparar? Tô não. Tem nem comparação. Tô tentando entender de onde vem a empatia delas.
Se você não tá dentro dos padrões e se acha linda, dá um abraço aqui mana. Você é foda pra caralho! Você ouve desaforo e sua cabeça tá lá erguida? Você é foda pra caralho!!!
Não quero nem estou diminuindo a luta individual nem interna de cada uma, inclusive as meninas que teoricamente estão “dentro do padrão” e mesmo assim lutam com sua auto-estima. Mas é libertador ter orgulho da sua cor, juntar todas aquelas coisas que dizem que são feias em você e ainda se achar bonita PRA CARALHO!
EU SOU AMARELA. O SEU FEMINISMO ME ENXERGA?

Eu li esse texto e me identifiquei em cada linha.

Sempre morei num bairro periférico, negros aqui são comuns, amarelos, não. Eu era zoada, tanto por brancos, quanto por negros. Eles passavam por mim e imitavam o cumprimento de abaixar a cabeça com as mãos juntas e falavam “arigatou… sayonara…”. Uma vez, na aula de inglês, a professora pediu para eu ler uma frase e um garoto negro perguntou para ela: “mas prof, e se ela confundir e ler em japonês?” A parte boa? A professora me defendeu: “isso é preconceito, cara, chega.”

Por causa disso, eu tinha uma certa dificuldade em entender porque o racismo contra negros era algo especial, porque todos reconheciam que não se pode falar de tal forma sobre eles ou com eles. Mas por que eles podiam praticar atos desrespeitosos contra outras pessoas? Eu não me fechei aos negros –  nem brancos, nem nenhuma outra raça. E descobri que o que os levam agir assim é a tal hipocrisia e não são todos que agem dessa forma, apenas os ignorantes. Eu aprendi e reconheci a luta deles.

Sempre quando se referiam a mim, falavam “japonesa, japa, japinha”. Quando eu era criança, meus olhos enchiam-se de lágrimas, porque eu tenho nome e eles não queriam saber qual é. Ser chamada assim foi algo que eu precisei me acostumar, nunca gostei, mas era o único jeito de não me queimar com as pessoas. Também precisei me acostumar a ouvir perguntas do tipo: “você fala japonês? Você come de palitinho? Qual a diferença entre japoneses e chineses? O pênis de japonês é mesmo menor?…”

“Mas é tudo brincadeira, eu ouvi falar que é assim, é só curiosidade…”. Ah sim, claro… Mas você não pergunta pro descendente de italianos se ele fala italiano, se ele só come pizza e macarrão, o tamanho do pênis de italiano. Você também não chama um negro de áfrica, mas chamar um japonês de japa está tudo bem, né?

As pessoas, em geral, me veem como uma menina delicada, fofinha, quietinha e depois que me conhecem, dizem que eu nem pareço japonesa. O que seria uma japonesa? Por que as pessoas dizem e imaginam essas coisas?

Diversas vezes, riam de mim, faziam piada de mau gosto, diziam que japoneses, chineses, coreanos são todos iguais. Uma vez, numa aula, um aluno fez uma pergunta e o professor pediu pra eu tampar os ouvidos, tampei e ele respondeu ao aluno: tudo igual é um caminhão cheio de japoneses. A sala toda riu, ele disse rindo que era brincadeira, eu fiquei sem graça, tentei rir, porque, caso contrário, diriam que eu sou chata, não sei levar na brincadeira.

Até hoje, eu tenho que aguentar “brincadeiras” desse tipo; até hoje, alguém da minha roda de amigos puxa os olhos para mim; até hoje, me falam: você é japa e não tira dez nas provas? Até hoje, me dizem que sou uma “japa fake”, porque não sei falar japonês; até hoje, me falam que eu deveria saber de cabo a rabo cada detalhe do Japão; até hoje, me fazem passar por diversos constrangimentos e eu não brigo, eu não discuto, finjo que não é por mal, porque dizem que japoneses não sofrem racismo.

“Mas não foi mesmo por mal, era brincadeira. Juro!” Até onde vai a brincadeira? Até onde vai sua curiosidade? Até onde vai, se é que há, bom senso? Por que ninguém pergunta se o descendente de alemão fala alemão? Se o descendente de italiano sabe tudo da Itália? “Ah, mas japonês é minoria numa sala de aula ou numa roda de amigos, quando a gente vê, vem as perguntas e tudo mais.” Com certeza, a maioria é brasileiro, né? Se você estudou, deveria saber que o Brasil é um país que foi colonizado por portugueses, antes deles, os índios eram quem ocupavam esse país. Com o passar dos anos, italianos, alemães, japoneses, africanos, etc vieram e fazem parte da população do Brasil. Então, como afirmar que, numa roda de amigos, quem é maioria e minoria? Aliás, pura curiosidade, poucos sabem: quem nasce no Brasil é brasileiro, assim como quem nasce no Japão é japonês e assim por diante.

Meu corpo sempre foi pequeno. Enquanto, aos 14 anos, as meninas da minha sala já estavam peitudas e bundudas, eu estava reta. Uma vez, uma menina disse: “gente, ela é retinha, credo!”. Desde então, naquela época, eu usava sempre um moletom pra disfarçar meus peitos minúsculos. Depois de alguns anos, ainda seca, passei a usa sutiã com bojo, porque qualquer lugar que eu ia, as pessoas olhavam para meus peitos e viam que eu mal tinha. E ainda hoje, não tenho.

As pessoas falam de igualdade para os negros, LGBTs e gordos. Ok, mas e o resto? Porque o racismo contra amarelos, por exemplo, é descartável, perto da deles? Eu digo “por exemplo”, porque não são só amarelos que sofrem racismo e passam despercebidos; tem muito mais.  Não é comparar, não. Não se compara preconceitos, racismos… Nunca. A gente quer é igualdade, entende? E enquanto a gente fingir que o preconceito e racismo estão restritos a tais grupos, nunca haverá igualdade.

 

SOBRE 2016

O que dizer desse ano que me torturou desde seu começo até seu fim?

Comecei meu ano torcendo para passar no vestibular. Passei na 5ª chamada e, talvez, alguém pense: “ah, mas passou, é o que importa”, mas só quem já passou pelo cursinho sabe a tortura que é ter seu nome na lista de espera. A gente nunca sabe o que pode ou não acontecer.

Foi um ano de acontecimentos novos e momentos bons e ruins. Os ruins, reconheci na hora. A todo instante, tudo estava cinza ou preto mesmo. Precisou acontecer o primeiro rompimento de laços de anos para eu me dar conta dos momentos bons e valoriza-los.

Passei no vestibular, conheci pessoas novas, fiz amizades – poucas, mas fiz – com pessoas parecidas comigo e que me ajudaram em tudo o que precisei, aprendi a dirigir, mantive e fortifiquei mais ainda meus laços com minhas amigas. Foram meus melhores momentos e conquistas do ano.

Todavia, briguei com uma amiga e, mesmo ela me pedindo desculpas e eu a desculpei, decidi dizer adeus a ela. Talvez, eu tenha pegado pesado com ela, mas fiz aquilo que achei certo. Não posso nem quero mais ter amigos cujas opiniões divergem das minhas, não quero ser amiga de quem diz que namorar é mais importante do que buscar uma vida independente, não quero ser amiga de quem diz e nada faz e não quero ser amiga de quem me trata mal porque seu dia estava péssimo. Quero amigos esforçados, que saibam dividir o pessoal do profissional e que, além de tudo, estejam por perto quando eu precisar; quero amigos sinceros e íntegros.

Sim, eu tenho esses amigos que quero e espero ter mais amigos assim.

Além disso, foi difícil, na faculdade, com os exames, DPs e dificuldade em me enturmar com a galera do meu curso e toda a competitividade que existe no ambiente universitário que me deixaram pressionada, amedrontada e com a sensação de ser a mais burra da turma. Minha falta de coragem para fazer o que é certo só me fazia andar com quem eu já conhecia, mas que não era do meu curso e que, somente dentro da faculdade, percebi que não tem nada em comum comigo.

Após passar o ano todo indo na psiquiatra, na psicóloga, escrevendo no blog, conversando com algumas amigas e refletindo tudo que passei ao longo da vida, percebi que não sou mais a mesma de quando estava no colégio e nunca voltarei a ser. A vida adulta começa a bater na porta. Ainda não tenho contas para pagar nem emprego, mas, meu primeiro ano na faculdade, mostrou-me que a vida não é mesmo um mar de rosas e nem sempre eu vou acordar super disposta, como acontecia no colégio, mesmo eu tendo amigos lá me  esperando. Sempre vai ser mais um dia para aprender e buscar aprender mais ainda até que a hora de colocar tudo em prática seja cobrado e, nessa hora, tudo tem que ser perfeito.

Esse ano, pude adquirir mais consciência do futuro que me aguarda e esse foi o começo dos motivos para os rompimentos que aconteceram e, embora pareça que eu sou ambiciosa, eu quero que quem esteja lendo saiba que eu sou ambiciosa e isso é algo bom, pois é o que me faz acordar toda manhã e encarar mais um dia dando o meu melhor de forma honesta comigo e com todos ao meu redor. Não sou doente por dinheiro. Sou só uma pessoa que quer se esforçar o máximo que puder, ser reconhecida por isso e, acima de tudo, levar uma vida independente e feliz.

Ah, 2016! Tanta coisa aconteceu, mas tanto eu aprendi.

Quando o avião com um time de futebol caiu, eu realmente quis chorar, fiquei triste e fiquei me perguntando “por que estou assim? Eu nem conhecia aquele time, aquelas pessoas… Por quê?”. Quando vi os times de futebol do mundo todo se unindo e prestando suas homenagens, eu senti esperança de que o mundo não está totalmente perdido, embora tenhamos um presidente ruim e o EUA tenha eleito um pior ainda. Minha família sempre me viu com um monstro, pois eu não demonstro sentimentos, depois desse acidente eu tive certeza de que eles estão errados e, pela primeira vez, soube o que é ser humana.

Por isso, pelas dores e tudo o que aconteceu esse ano, obrigada, 2016. Muitos te odeiam, pois foi o ano cheio de mortes de famosos, presidentes mau caráter no poder, guerras e atentados terroristas no mundo, crise econômica… Mas eu reconheço as coisas boas e reconheço que parte das ruins são apenas o reflexo da atual sociedade desacreditada e narcisista em que vivo.

 

Serei repetitiva, mas deixo, novamente, o vídeo de uma entrevista da Gaga, o que ela diz é o que eu tenho buscado fazer.