O RACISMO QUE NINGUÉM VÊ

Antes de tudo, quero deixar o que é racismo, segundo o dicionário Priberam, porque, durante muito tempo, eu acreditava que racismo dizia respeito a somente negros.

1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria.

2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc.

Encontrei esse texto no Facebook de uma mulher chamada Fabiane Ahn:

Como toda mulher, sofro agressões diariamente. Mas eu não sou só mulher. Eu também sou amarela.
As agressões a mim direcionadas não são vistas como agressões, muito menos injúrias raciais. Dizem que eu não sofro racismo. Porque racismo é contra negro e aos meus nada se vê. Mas eu sinto.
Eu sou feminista. Tem dias que são difíceis. Tem dias que ouço as frases dentro das aspas abaixo de outras ditas feministas. Tudo que transcrevi nas linhas que seguem eu realmente ouvi e ouço. Mas eu sou feminista. Então eu resisto.
“Calma! É só uma brincadeirinha!”
É uma brincadeirinha… Nadica de nada…
– Ô “japa”!
– Meu nome é…
– “Japa”!
– É sério, eu prefiro que me chame pelo meu nome…
– Hahaha!
Você prefere ser chamada pelo seu nome? Mas seu nome não importa! Bradam com orgulho de onde vem o sobrenome que carregam: “Minha avó é italiana!”; “Toda a minha família veio da Alemanha!”; “Meu avô por parte de pai é meio russo”. Mas você não importa. China? Japão? Coreia do Sul? Do Norte? Taiwan? Hahaha! É tudo a mesma coisa! Seu nome não importa. Você é a “japa”. Eu não preciso me dar ao trabalho de saber o seu nome, garota.
“Racismo? Pelo amor de Deus, você não sofre racismo, você é quase branca!!!”
Eu sou quase branca… Sou quase branca? Houve época em que ouvir tal afirmação me daria alívio. “Ufa” – pensaria, “passei despercebida”. Só que eu não sou branca. Nem “quase branca”. Não me dilua. Eu sou AMARELA.
“Até que você é bonita para uma ‘japa’.”
A dita feminista me faz sentir um lixo. “Até que” eu sou bonita. Pra uma “japa”. Porque as “japas” são horríveis. Você já parou pra reparar nelas? Tem aquela famosa lá, a Lucy Liu que chama né? Ela é bonita. É bonita pra caramba. Mas as asiáticas são feinhas né? A cara bolachuda! Hahaha, que coisa… É, não costumam ser bonitas não…
Eu cresci me achando feia. Acreditava piamente nisso. “Feia”. Olhava no espelho e a menina de 13 anos do reflexo me falava: “feia”. Olhava no espelho e tava tudo errado! O cabelo? Preto, liso, sem graça. A pele? Amarelada. O rosto? Todo redondinho, que saco, parece uma bola! Cadê o corpo? Cadê meu corpo? O corpo que refletia ali no espelho não era o suficiente. Cadê O corpo? O violão, eu quero dizer! Os peitos, a bunda, as coxas??? Não quero nem falar dos olhos… tão pequenos, puxados… Escuros… Que saco… Não é à toa que perguntam se eu enxergo alguma coisa com eles… Queria ter olhos azuis.
“Seu corpo parece uma criança! Hahaha.” – ria a dita feminista, enquanto caçoava da minha falta de curvas mesmo aos quase 30 anos. Só que eu não sou a menina de 13 anos parada na frente do espelho sem saber por que via tanta coisa errada num corpo que não tinha nada de errado. Eu não queria mudar meu biotipo. Eu queria mudar a minha RAÇA. Eu queria ser branca, porque ser branca significaria não ser zombada na escola. Porque ser branca significaria ser tirada pra dançar na festinha americana. Ser branca significaria ser BONITA.
Eu nunca fui feia. Eu só nunca fui branca. E isso era tudo que tinha de “errado” comigo.
Toda vez que dizem pra uma mina fora dos padrões que “até que ela é bonita pra uma [insira etnia]”, ferem nossa história de aceitação, nossa cultura, nossos traços, enquanto mais uma vez, enfiam em nossas goelas abaixo esse padrão que não representa nenhuma de nós.
A dita feminista se preocupa com sua menstruação, seu corpo, seu útero. Procura saber sobre o coletor menstrual. Muito melhor! Mas no meio tempo me diz: “[…] falando nisso, estive discutindo com uns conhecidos nossos… queria te perguntar uma coisa… a sua vagina é na horizontal mesmo? Hahaha”. Porque eu sou asiática. Por isso a piada. Hahaha! Você não achou engraçado? Era pra ser engraçado! A sua vagina, pô!
“Vocês são bem submissas, né?” – pergunta a conhecida.
Ao passo que da mulher negra fazem a imagem da mulher agressiva, de nós, asiáticas, fazem a imagem da mulher submissa. A que não reclama. Que ri com as mãos à boca. Tímida. Internaliza. Nunca exterioriza. Flor do Oriente. Delicada, fala pouco, fraca, frágil, inocente, ingênua, DÓCIL. Porém pronta pra ser fetichizada. Porque nós, mulheres de cor, somos fetiches.
Caralho, eu não sou nenhuma dessas coisas!!!
“Calmaaa! Caramba, de onde saiu isso? Não sabia que vocês eram bravas assim, eu hein!”
Porque a mulher asiática é submissa. Não é? Era pra ser!
“Deixa eu te apresentar meu amigo, ele SÓ gosta de orientais!”
“Eu já fiquei com duas asiáticas antes de você.“
“Você é muito exótica” – eu não sou fruta, eu não sou bicho e tem mais 1,5 bilhão de pessoas de onde eu descendo.
Eu sou “exótica” ou eu NÃO SOU BRANCA?
A pessoa não gostou do que eu falei? “Volta pra tua terra!”
A pessoa não gostou de mim? “Volta pra tua terra!”
Eu existo: “Volta pra tua terra!”
As manas negras são acolhedoras. Acolhedoras demais. Elas sofrem a pior face do racismo, veem a cara mais feia e mais suja dele. Desde sempre. Souberam, já quando crianças, o que lhes custou ter cor na pele e não ter o nariz fininho. Nós amarelas temos isso em comum com elas. Tô tentando comparar? Tô não. Tem nem comparação. Tô tentando entender de onde vem a empatia delas.
Se você não tá dentro dos padrões e se acha linda, dá um abraço aqui mana. Você é foda pra caralho! Você ouve desaforo e sua cabeça tá lá erguida? Você é foda pra caralho!!!
Não quero nem estou diminuindo a luta individual nem interna de cada uma, inclusive as meninas que teoricamente estão “dentro do padrão” e mesmo assim lutam com sua auto-estima. Mas é libertador ter orgulho da sua cor, juntar todas aquelas coisas que dizem que são feias em você e ainda se achar bonita PRA CARALHO!
EU SOU AMARELA. O SEU FEMINISMO ME ENXERGA?

Eu li esse texto e me identifiquei em cada linha.

Sempre morei num bairro periférico, negros aqui são comuns, amarelos, não. Eu era zoada, tanto por brancos, quanto por negros. Eles passavam por mim e imitavam o cumprimento de abaixar a cabeça com as mãos juntas e falavam “arigatou… sayonara…”. Uma vez, na aula de inglês, a professora pediu para eu ler uma frase e um garoto negro perguntou para ela: “mas prof, e se ela confundir e ler em japonês?” A parte boa? A professora me defendeu: “isso é preconceito, cara, chega.”

Por causa disso, eu tinha uma certa dificuldade em entender porque o racismo contra negros era algo especial, porque todos reconheciam que não se pode falar de tal forma sobre eles ou com eles. Mas por que eles podiam praticar atos desrespeitosos contra outras pessoas? Eu não me fechei aos negros –  nem brancos, nem nenhuma outra raça. E descobri que o que os levam agir assim é a tal hipocrisia e não são todos que agem dessa forma, apenas os ignorantes. Eu aprendi e reconheci a luta deles.

Sempre quando se referiam a mim, falavam “japonesa, japa, japinha”. Quando eu era criança, meus olhos enchiam-se de lágrimas, porque eu tenho nome e eles não queriam saber qual é. Ser chamada assim foi algo que eu precisei me acostumar, nunca gostei, mas era o único jeito de não me queimar com as pessoas. Também precisei me acostumar a ouvir perguntas do tipo: “você fala japonês? Você come de palitinho? Qual a diferença entre japoneses e chineses? O pênis de japonês é mesmo menor?…”

“Mas é tudo brincadeira, eu ouvi falar que é assim, é só curiosidade…”. Ah sim, claro… Mas você não pergunta pro descendente de italianos se ele fala italiano, se ele só come pizza e macarrão, o tamanho do pênis de italiano. Você também não chama um negro de áfrica, mas chamar um japonês de japa está tudo bem, né?

As pessoas, em geral, me veem como uma menina delicada, fofinha, quietinha e depois que me conhecem, dizem que eu nem pareço japonesa. O que seria uma japonesa? Por que as pessoas dizem e imaginam essas coisas?

Diversas vezes, riam de mim, faziam piada de mau gosto, diziam que japoneses, chineses, coreanos são todos iguais. Uma vez, numa aula, um aluno fez uma pergunta e o professor pediu pra eu tampar os ouvidos, tampei e ele respondeu ao aluno: tudo igual é um caminhão cheio de japoneses. A sala toda riu, ele disse rindo que era brincadeira, eu fiquei sem graça, tentei rir, porque, caso contrário, diriam que eu sou chata, não sei levar na brincadeira.

Até hoje, eu tenho que aguentar “brincadeiras” desse tipo; até hoje, alguém da minha roda de amigos puxa os olhos para mim; até hoje, me falam: você é japa e não tira dez nas provas? Até hoje, me dizem que sou uma “japa fake”, porque não sei falar japonês; até hoje, me falam que eu deveria saber de cabo a rabo cada detalhe do Japão; até hoje, me fazem passar por diversos constrangimentos e eu não brigo, eu não discuto, finjo que não é por mal, porque dizem que japoneses não sofrem racismo.

“Mas não foi mesmo por mal, era brincadeira. Juro!” Até onde vai a brincadeira? Até onde vai sua curiosidade? Até onde vai, se é que há, bom senso? Por que ninguém pergunta se o descendente de alemão fala alemão? Se o descendente de italiano sabe tudo da Itália? “Ah, mas japonês é minoria numa sala de aula ou numa roda de amigos, quando a gente vê, vem as perguntas e tudo mais.” Com certeza, a maioria é brasileiro, né? Se você estudou, deveria saber que o Brasil é um país que foi colonizado por portugueses, antes deles, os índios eram quem ocupavam esse país. Com o passar dos anos, italianos, alemães, japoneses, africanos, etc vieram e fazem parte da população do Brasil. Então, como afirmar que, numa roda de amigos, quem é maioria e minoria? Aliás, pura curiosidade, poucos sabem: quem nasce no Brasil é brasileiro, assim como quem nasce no Japão é japonês e assim por diante.

Meu corpo sempre foi pequeno. Enquanto, aos 14 anos, as meninas da minha sala já estavam peitudas e bundudas, eu estava reta. Uma vez, uma menina disse: “gente, ela é retinha, credo!”. Desde então, naquela época, eu usava sempre um moletom pra disfarçar meus peitos minúsculos. Depois de alguns anos, ainda seca, passei a usa sutiã com bojo, porque qualquer lugar que eu ia, as pessoas olhavam para meus peitos e viam que eu mal tinha. E ainda hoje, não tenho.

As pessoas falam de igualdade para os negros, LGBTs e gordos. Ok, mas e o resto? Porque o racismo contra amarelos, por exemplo, é descartável, perto da deles? Eu digo “por exemplo”, porque não são só amarelos que sofrem racismo e passam despercebidos; tem muito mais.  Não é comparar, não. Não se compara preconceitos, racismos… Nunca. A gente quer é igualdade, entende? E enquanto a gente fingir que o preconceito e racismo estão restritos a tais grupos, nunca haverá igualdade.

 

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